O Rio de Janeiro está tomado pela sujeira. O Estado que estampa os cartões-postais do país vive, há décadas, uma profunda e persistente crise moral na sua vida pública. Trata-se de uma mancha que se repete governo após governo, legislatura após legislatura, sempre impregnada pelos mesmos detritos: corrupção crônica, favorecimentos ilícitos, aparelhamento sistemático da máquina pública, organizações criminosas infiltradas nas esferas de poder e relações obscuras entre interesses privados e as estruturas do Estado.
A sucessão de governadores presos, autoridades investigadas, parlamentares afastados e operações policiais contínuas expõe um cenário desolador, obrigando o povo fluminense a assistir, perplexo, ao desgaste quase irreversível da credibilidade das instituições do Rio de Janeiro.
Enquanto essa lama escorre pelos corredores do poder político, quem de fato paga a conta do desperdício e do desvio de recursos é a população e o serviço público. Essa degradação se materializa nos hospitais desprovidos de estrutura básica, nas escolas abandonadas à própria sorte, na segurança pública sucateada e nos serviços essenciais precarizados.
Contudo, em meio a esse caos administrativo e político, há uma força silenciosa que impede o colapso definitivo do Rio de Janeiro, os servidores públicos que sustentam diariamente o funcionamento do Estado. Enquanto governadores corruptos e seus apadrinhados entram e saem dos palácios e das prisões, são essas pessoas que seguram o funcionamento do Estado na ponta do serviço, atendendo o cidadão e garantindo que a máquina pública não pare de rodar.
Prova disso foi o choque administrativo, produzido pela chegada do governador interino, desembargador Ricardo Couto, que rapidamente repercutiu junto à sociedade e ao funcionalismo. A substituição de gestores ligados ao antigo governo, a exoneração massiva em estruturas marcadas por indicações políticas e a retomada da valorização de servidores de carreira em posições estratégicas resgataram um sentimento que há muito tempo parecia perdido: a sensação de que o Estado pode voltar a funcionar em favor do interesse público.
Sim, uma pessoa que decidiu não ser cooptada pela política suja pode mudar o destino da política fluminense!
As mudanças implementadas, somadas ao anúncio do pagamento das parcelas de recomposição salarial, vislumbram um horizonte de dignidade, reconhecimento e confiança. E o apoio popular a essas medidas revela que a sociedade fluminense também deseja um Estado mais técnico, mais ético, mais transparente e menos submetido a interesses políticos obscuros.
Chega de sujeira, o servidor público e a sociedade fluminense querem respeito. Afinal, a faxina institucional que o desembargador tenta realizar de tempos em tempos é, na verdade, o mesmo esforço diário que cada servidor realiza para manter o Estado em pé. Eis que, o destino nos coloca diante de uma ironia pedagógica: foi preciso que um servidor público de carreira (o desembargador Ricardo Couto), alçado ao cargo máximo do Executivo estadual, iniciasse a limpeza que há tanto tempo se fazia necessária e que deveria ter sido conduzida por governantes eleitos.
Não se trata aqui de idolatrar uma figura individual ou de endossar discursos populistas de negação da política. Pelo contrário, defendemos a política em sua essência mais nobre: como instrumento legítimo de transformação social e desenvolvimento. Mas o que essa transição temporária revela é uma verdade que a sociedade fluminense precisa compreender de uma vez por todas: a eficiência, a ética e a probidade na gestão pública dependem diretamente da valorização e do respeito ao servidor público de carreira.
As medidas de saneamento administrativo adotadas recentemente, acompanhadas pelo anúncio do pagamento de parcelas de recomposição salarial, trouxeram um sopro de dignidade e confiança a uma categoria que vinha sendo sistematicamente massacrada. Diante do horizonte eleitoral que se aproxima, a defesa desse novo rumo ético e administrativo torna-se uma responsabilidade inadiável para todo o funcionalismo e para a população fluminense, que não podem mais aceitar o retrocesso à velha política do compadrio.
Mas para que o Rio de Janeiro seja efetivamente passado a limpo é fundamental transformar esse sentimento de indignação em organização e luta permanente. Defendemos um Estado forte, transparente, eficiente e guiado pelo interesse público. Defendemos a valorização dos servidores de carreira, a profissionalização da administração pública e o combate permanente à corrupção e ao desperdício. Essa limpeza profunda e duradoura só será consolidada com o fortalecimento de instrumentos coletivos de resistência, como o Fosperj (Fórum Permanente dos Servidores Públicos do Estado do Rio de Janeiro) e a mobilização ativa do Movimento Recomposição Salarial Já!
Chega de retrocessos. Chega de espoliação. Chega de patrimonialismo. O povo fluminense merece respeito. Os servidores públicos merecem respeito. O Rio de Janeiro merece respeito. A verdadeira valorização do serviço público não pode ser um ato de benevolência temporária, mas sim uma política de Estado contínua, que começa pelo respeito aos direitos constitucionais e pela reposição das perdas salariais acumuladas que corroem a dignidade dos trabalhadores. Somente com um funcionalismo forte, independente e valorizado seremos capazes de varrer definitivamente a corrupção e construir um Rio de Janeiro onde o cidadão tenha, finalmente, orgulho de suas instituições e não vergonha delas.









